Quando a ansiedade começa a ocupar mais espaço
A ansiedade faz parte da vida. Pode aparecer antes de uma decisão importante, diante de uma mudança, quando alguma coisa nos preocupa ou quando não sabemos muito bem o que vai acontecer.
Em algumas situações, ela nos deixa mais atentos e ajuda a nos preparar. Em outras, pode se tornar intensa, persistente ou começar a interferir no cotidiano. Por isso, sentir ansiedade não significa, por si só, ter um transtorno psicológico. A avaliação considera a frequência e a intensidade das manifestações, o sofrimento envolvido e suas repercussões na vida da pessoa (Baldaçara et al., 2024).
Quando alguém procura a psicoterapia dizendo que está ansioso, conhecer os sintomas é importante, mas não é suficiente. Também precisamos saber quando eles aparecem, há quanto tempo estão presentes, em quais situações se intensificam e como a pessoa costuma responder a eles. Essa história ajuda a entender por que experiências que recebem o mesmo nome podem ser tão diferentes.
Quando parece que a ansiedade sempre esteve ali
Algumas pessoas conseguem perceber quando a ansiedade começou a ocupar mais espaço. Pode ter acontecido durante uma mudança no trabalho, uma dificuldade financeira, um problema de saúde, um conflito familiar, uma perda ou um período marcado por muitas incertezas.
Outras contam uma história diferente. Dizem que sempre foram muito preocupadas, que certos medos existem desde cedo ou que há muito tempo convivem com a sensação de precisar estar preparadas para alguma coisa dar errado.
Sabemos que alguns transtornos de ansiedade podem surgir ainda na infância ou na adolescência, mas isso não acontece da mesma maneira em todos eles. Fobias específicas e ansiedade de separação, por exemplo, costumam aparecer mais cedo, enquanto a ansiedade social é mais frequente a partir do início da adolescência. Para o transtorno de ansiedade generalizada, os dados sobre a idade de início são mais variáveis. O curso também pode envolver persistência, remissão, recorrência ou mudanças na forma como a ansiedade se manifesta ao longo do desenvolvimento (Rapee et al., 2023; Warner et al., 2023).
Na psicoterapia, conhecer essa trajetória não significa procurar um acontecimento no passado capaz de explicar tudo. A história ajuda a perceber como certas formas de responder às situações foram se construindo e se modificando ao longo do tempo.
Também precisamos olhar para o presente. Trabalho, relações, saúde, responsabilidades familiares, condições financeiras e outras circunstâncias concretas participam da experiência de saúde mental. Estudos sobre determinantes sociais reforçam os limites de explicações concentradas apenas em características individuais ou biológicas (Huggard et al., 2023).
O que acontece quando a ansiedade aparece?
A ansiedade pode envolver preocupações recorrentes, sensações físicas e uma atenção maior ao que parece ameaçador ou incerto. Diante do desconforto, é compreensível tentar encontrar alguma forma de alívio.
Às vezes, isso acontece evitando uma situação. Em outras, adiando uma decisão, verificando repetidamente se algo está certo ou procurando garantias de que aquilo que preocupa não acontecerá.
Uma pessoa pode evitar uma apresentação porque teme não conseguir falar. Outra pode recusar uma oportunidade porque não tem certeza de que dará conta. Também pode acontecer de a preocupação ocupar tanto tempo que fica difícil se concentrar no que está acontecendo no presente.
Essas respostas podem aliviar o desconforto naquele momento. Quando passam a se repetir, porém, vale observar se começam a restringir escolhas e atividades.
A busca por certeza também pode ganhar espaço. Nem todas as situações da vida permitem saber antecipadamente o que acontecerá. A dificuldade em lidar com essa incerteza tem sido estudada especialmente no transtorno de ansiedade generalizada e apresenta relação com preocupação e ansiedade. Intervenções psicológicas dirigidas a esse processo também têm sido investigadas (Wilson et al., 2023).
Assim, mais do que saber quanto alguém sente ansiedade, interessa compreender como a pessoa responde quando ela aparece e quais consequências essas respostas têm em sua vida.
Quando procurar ajuda?
Nem sempre existe um momento exato em que uma preocupação deixa de ser circunstancial e passa a precisar de atenção profissional.
Uma possibilidade é observar suas repercussões. As preocupações estão difíceis de manejar? Situações importantes estão sendo evitadas? O sono, o trabalho, os estudos ou as relações começaram a ser afetados? Atividades que faziam parte da rotina estão ficando mais difíceis?
Persistência, sofrimento e prejuízos no funcionamento são aspectos considerados na avaliação clínica dos transtornos de ansiedade (Baldaçara et al., 2024). Essas perguntas, no entanto, não formam uma lista para autodiagnóstico. Elas podem ajudar a perceber quando vale buscar uma avaliação e entender melhor o que está acontecendo.
Também é preciso ter cuidado com as manifestações físicas. Palpitação, falta de ar, tontura, desconforto no peito e outras sensações podem ocorrer durante episódios de ansiedade, mas não são exclusivas dela. A avaliação precisa considerar outras condições que possam produzir manifestações semelhantes e, quando necessário, envolver outros profissionais de saúde (Baldaçara et al., 2024).
Por isso, sintomas físicos não devem ser automaticamente atribuídos à ansiedade, principalmente quando são novos, intensos ou diferentes do habitual. A relação entre ansiedade, sintomas cardiovasculares e situações que exigem atendimento médico será abordada separadamente em outro texto.
E na psicoterapia?
O trabalho começa entendendo o que está acontecendo. A partir daí, podemos pensar nas intervenções que fazem sentido para aquela situação.
A Terapia Cognitivo-Comportamental dispõe de diferentes estratégias para o tratamento dos transtornos de ansiedade. Dependendo do caso, o trabalho pode envolver a maneira como determinadas situações são interpretadas, mudanças no comportamento, aproximação gradual de situações evitadas e outras formas de lidar com preocupações e incertezas.
Esse repertório também inclui intervenções que trabalham aceitação, atenção ao momento presente e a relação que estabelecemos com pensamentos e emoções. Entre elas estão a Terapia de Aceitação e Compromisso, ACT, e intervenções baseadas em mindfulness.
Uma revisão sistemática e meta-análise em rede que reuniu 65 estudos, com 5.048 participantes, encontrou resultados favoráveis tanto para a TCC quanto para intervenções cognitivo-comportamentais de terceira onda no tratamento agudo do transtorno de ansiedade generalizada. No acompanhamento de longo prazo, a TCC foi a modalidade que permaneceu superior ao tratamento usual. Os autores também observam que diferentes psicoterapias podem compartilhar componentes, o que torna importante investigar quais processos contribuem para os resultados alcançados (Papola et al., 2024).
Outra revisão sistemática e meta-análise avaliou ACT, Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness e Redução do Estresse Baseada em Mindfulness em adultos com transtornos de ansiedade. Os resultados apontaram benefícios no curto prazo, mas as limitações dos estudos e os resultados de seguimento recomendam cautela ao comparar essas intervenções com outras abordagens (Haller et al., 2021).
Na prática, ter diferentes possibilidades de intervenção não significa reunir técnicas sem um motivo clínico. Em uma situação, pode ser importante trabalhar a interpretação de determinados acontecimentos. Em outra, aproximar-se gradualmente de algo que vem sendo evitado. Também pode fazer sentido observar um pensamento sem responder imediatamente a ele, lidar de outra maneira com a incerteza ou continuar fazendo algo importante mesmo na presença de uma emoção desconfortável.
Tratamentos psicológicos também podem produzir mudanças na maneira de lidar com a incerteza. Uma revisão sistemática e meta-análise encontrou redução da intolerância à incerteza após intervenções psicológicas para o transtorno de ansiedade generalizada, acompanhada de mudanças na preocupação e na ansiedade (Wilson et al., 2023).
O objetivo, portanto, não precisa ser eliminar qualquer experiência de ansiedade. O trabalho pode ampliar as possibilidades de resposta diante dela, principalmente quando as tentativas de controle ou evitação começam a restringir a vida.
Diferentes histórias, diferentes caminhos
Dizer “sou ansioso” pode reunir experiências muito diferentes. Para algumas pessoas, a ansiedade se intensificou recentemente. Para outras, medos e preocupações aparecem em diferentes momentos desde muito cedo. Há situações em que as condições atuais de vida têm um peso importante. Em outras, formas de lidar com preocupação, evitação ou incerteza foram se tornando mais presentes ao longo do tempo. Também há casos em que a avaliação identifica um transtorno de ansiedade que precisa de tratamento.
Essas possibilidades não precisam ser excludentes. Por isso, a escolha de uma intervenção vem depois da compreensão do caso. Conhecer a história, observar o funcionamento atual e identificar o que está trazendo sofrimento ou limitando a vida ajudam a orientar o trabalho.
A ciência oferece diferentes possibilidades de intervenção. Na clínica, esse conhecimento precisa dialogar com a experiência, as necessidades e as condições de vida de cada pessoa.
Referências
Baldaçara, L., Paschoal, A. B., Pinto, A. F., Loureiro, F. F., Antonio, L. A. V. G., Veiga, D. L., Almeida, T. M., Santos, D. C., Malloy-Diniz, L. F., Mello, M. F., Mello, A. F., Sanches, M., Gandarela, L. M., Bernik, M. A., Nardi, A. E., Silva, A. G., & Uchida, R. R. (2024). Brazilian Psychiatric Association treatment guidelines for generalized anxiety disorder: Perspectives on pharmacological and psychotherapeutic approaches. Brazilian Journal of Psychiatry, 46, e20233235. https://doi.org/10.47626/1516-4446-2023-3235
Haller, H., Breilmann, P., Schröter, M., Dobos, G., & Cramer, H. (2021). A systematic review and meta-analysis of acceptance- and mindfulness-based interventions for DSM-5 anxiety disorders. Scientific Reports, 11, 20385. https://doi.org/10.1038/s41598-021-99882-w
Huggard, L., Murphy, R., O’Connor, C., & Nearchou, F. (2023). The social determinants of mental illness: A rapid review of systematic reviews. Issues in Mental Health Nursing, 44(4), 302–312. https://doi.org/10.1080/01612840.2023.2186124
Papola, D., Miguel, C., Mazzaglia, M., Franco, P., Tedeschi, F., Romero, S. A., Patel, A. R., Ostuzzi, G., Gastaldon, C., Karyotaki, E., Harrer, M., Purgato, M., Sijbrandij, M., Patel, V., Furukawa, T. A., Cuijpers, P., & Barbui, C. (2024). Psychotherapies for generalized anxiety disorder in adults: A systematic review and network meta-analysis of randomized clinical trials. JAMA Psychiatry, 81(3), 250–259. https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2023.3971
Rapee, R. M., Creswell, C., Kendall, P. C., Pine, D. S., & Waters, A. M. (2023). Anxiety disorders in children and adolescents: A summary and overview of the literature. Behaviour Research and Therapy, 168, 104376. https://doi.org/10.1016/j.brat.2023.104376
Warner, E. N., Ammerman, R. T., Glauser, T. A., Pestian, J. P., Agasthya, G., & Strawn, J. R. (2023). Developmental epidemiology of pediatric anxiety disorders. Child and Adolescent Psychiatric Clinics of North America, 32(3), 511–530. https://doi.org/10.1016/j.chc.2023.02.001
Wilson, E. J., Abbott, M. J., & Norton, A. R. (2023). The impact of psychological treatment on intolerance of uncertainty in generalized anxiety disorder: A systematic review and meta-analysis. Journal of Anxiety Disorders, 97, 102729. https://doi.org/10.1016/j.janxdis.2023.102729
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