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Quando a conversa perde o tema: três falácias argumentativas

Foto do escritor: Andresa França
Andresa França
20 de set.
5 min de leitura

Na semana passada, participei de uma discussão em que o tema inicial se perdia a cada resposta. Quando eu pedia que a pessoa explicasse uma afirmação, o raciocínio não avançava. Em vez disso, surgiam frases desconexas e exemplos que não respondiam ao ponto apresentado. A conversa mudava constantemente de direção até que a pessoa deixou de argumentar e passou a tentar desqualificar meu ponto de vista.

Você já viveu algo parecido? Já terminou uma conversa com a sensação de que sua fala foi distorcida, de que a discussão se voltou contra você ou simplesmente deixou de fazer sentido?

Situações assim envolvem falácias argumentativas: raciocínios que parecem responder à questão, mas desviam o foco, distorcem a fala ou atacam a pessoa em vez do argumento.

Identificar uma falácia exige cuidado, pois um argumento falho não torna a conclusão automaticamente falsa nem implica manipulação consciente. O critério central é observar se a resposta realmente enfrenta o tema.

Quando o assunto muda, mas a questão continua sem resposta

Uma forma de afastar a conversa do tema inicial é introduzir uma informação que parece relevante, mas não esclarece o ponto discutido. Esse desvio é conhecido como red herring, uma falácia de relevância que conduz a discussão para longe da questão central (Walton, 2004).

Exemplo:

Pessoa A: “Por que você contou para outras pessoas algo que eu pedi que ficasse entre nós?” Pessoa B: “Mas eu sempre ajudo você quando precisa.”

A ajuda oferecida em outros momentos pode ser importante para a amizade, mas não explica por que uma informação confidencial foi compartilhada. A resposta direciona a atenção para uma qualidade da relação, enquanto a quebra de confiança permanece sem explicação.

Para reconhecer o red herring, é preciso observar se a informação apresentada ajuda a responder à questão ou apenas afasta a atenção dela. Uma afirmação pode ser verdadeira e, ainda assim, não ter relação suficiente com o que está sendo discutido.

Quando se responde a uma versão distorcida da fala

O espantalho ocorre quando a posição de alguém é modificada, exagerada ou simplificada e, depois, essa nova versão é contestada como se fosse a original (Lewiński & Oswald, 2013).

Exemplo:

Pessoa A: “Neste fim de semana, eu queria ficar em casa descansando e não ir à festa.” Pessoa B: “Então agora você decidiu que vai se isolar de todo mundo e nunca mais quer ver os seus amigos?”

A primeira pessoa falou sobre descansar em um fim de semana e não comparecer a uma festa específica. A resposta transforma essa escolha pontual em uma decisão permanente de isolamento. Em vez de considerar o que foi dito, passa-se a contestar uma posição extrema que não foi defendida.

Para identificar o espantalho, é necessário comparar a fala original com a versão atribuída ao interlocutor. A falácia aparece quando a reformulação altera o sentido da fala e substitui a posição inicial por outra, geralmente mais fácil de criticar.

Quando a pessoa ocupa o lugar do argumento

No ad hominem, a discussão deixa de se concentrar na questão apresentada e passa a se concentrar em quem a apresentou. Características pessoais, intenções ou julgamentos são usados para desqualificar uma afirmação sem examinar seu conteúdo (Aikin, 2025).

Exemplo:

Pessoa A: “A contratação de pessoas com deficiência é importante, mas também precisamos discutir a acessibilidade do ambiente, a adaptação dos processos e as condições de permanência desses profissionais.” Pessoa B: “Esse tipo de questionamento mostra que você é preconceituoso. Por isso, sua opinião sobre inclusão não deve ser levada em consideração.”

A primeira fala propõe que a inclusão não se limite à contratação. A resposta não examina as condições de acessibilidade e permanência mencionadas. Em vez disso, classifica a pessoa como preconceituosa e usa esse julgamento para descartar sua contribuição.

Apontar preconceito não constitui, por si só, uma falácia. Se uma fala reproduz estereótipos, inferioriza um grupo ou defende tratamento desigual, é pertinente mostrar onde esses elementos aparecem. O ad hominem ocorre quando a acusação é usada para desqualificar a pessoa sem demonstrar sua relação com o que ela efetivamente disse.

O que podemos concluir

Essas três falácias interrompem a análise do ponto central de maneiras diferentes. No red herring, a conversa é desviada para uma informação que não responde à questão. No espantalho, a posição original é substituída por uma versão distorcida. No ad hominem, a pessoa passa a ocupar o lugar do argumento.

Em conversas reais, essas falácias também podem aparecer juntas. Uma resposta pode distorcer a fala, atribuir uma intenção não expressa e, em seguida, usar essa atribuição para atacar quem falou. Por isso, os conceitos não devem ser usados como rótulos rígidos, mas como instrumentos para examinar o que aconteceu com a argumentação.

Recorrer a uma falácia não prova que alguém não tenha nenhum argumento ou que sua conclusão seja falsa. O que podemos afirmar é que, naquele momento, a pessoa não respondeu ao ponto levantado nem apresentou razões suficientes para sustentar sua posição.

Quando encerrar a conversa

Nem toda conversa que perde o foco precisa ser encerrada imediatamente. Às vezes, uma pergunta ou uma breve retomada do tema é suficiente. O limite aparece quando, mesmo após tentativas de esclarecimento, a questão continua sem resposta e a conversa passa a repetir desvios, distorções ou ataques pessoais.

Nessas situações, permanecer no diálogo pode significar apenas responder a novas acusações e defender posições que nunca foram apresentadas. Encerrar a conversa não demonstra falta de argumentos nem significa que a outra pessoa venceu. Pode ser apenas o reconhecimento de que, naquele momento, não existem condições para uma discussão produtiva.

É possível dizer de forma direta: “Percebo que não estamos conseguindo conversar sobre o ponto inicial. Prefiro encerrar por aqui.”

Compreender não é concordar

Uma conversa produtiva não exige consenso. Ela exige clareza sobre o que foi dito, razões relacionadas ao tema e distinção entre as ideias e as pessoas que as apresentam.

Conhecer as falácias argumentativas não deveria servir para distribuir novos rótulos ou simplesmente declarar que o outro está errado. Seu valor está em ajudar a perceber quando o tema foi abandonado, quando uma fala foi transformada em outra ou quando um julgamento pessoal tomou o lugar das razões.

Antes de responder, talvez seja útil perguntar: estou discutindo o que essa pessoa realmente disse ou a interpretação que construí sobre sua fala?

Referências

Aikin, S. (2025). Three puzzles with ad hominem arguments. Journal of the American Philosophical Association, 11(3), 622–639. https://doi.org/10.1017/apa.2025.3

Lewiński, M., & Oswald, S. (2013). When and how do we deal with straw men? A normative and cognitive pragmatic account. Journal of Pragmatics, 59, 164–177. https://doi.org/10.1016/j.pragma.2013.05.001

Walton, D. (2004). Classification of fallacies of relevance. Informal Logic, 24(1), 71–103. https://doi.org/10.22329/il.v24i1.2133

 
 
 

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