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Quando um pensamento parece um fato

Foto do escritor: Andresa França
Andresa França
17 de ago.
6 min de leitura

Atualizado: 30 de ago.

Por que a mente tira conclusões tão rápidas e o que fazer antes de acreditar nelas

Uma mensagem fica sem resposta.

Pouco depois, você pensa: “A pessoa está chateada comigo.”

Você comete um erro no trabalho e conclui: “Eu não faço nada direito.”

Antes de uma conversa importante, a mente avisa: “Vai dar tudo errado.”

Você já passou por algo assim?

Às vezes, a mente chega a uma conclusão antes mesmo de conseguirmos entender o que aconteceu. Quando esse pensamento vem acompanhado de medo, culpa, tristeza ou preocupação, pode parecer uma verdade.

Mas um pensamento não é um fato.

Entre o que acontece e o que sentimos está a forma como interpretamos a situação. É a história que contamos a nós mesmos, e ela nem sempre mostra o quadro completo.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), alguns desses padrões são chamados de distorções cognitivas. O termo pode parecer complicado, mas a ideia é simples: são formas rápidas e automáticas de pensar que podem fazer uma situação parecer pior, mais ameaçadora ou mais definitiva do que ela realmente é.

Reconhecer esses padrões não significa ignorar o que você sente. Significa criar uma pausa antes de acreditar em tudo o que passa pela sua cabeça.

A pergunta que pode abrir essa pausa é:

“O que passou pela minha cabeça quando isso aconteceu?”

Por que a mente tira conclusões tão rápidas?

Nossa mente gosta de encontrar respostas.

Ela tenta explicar o que aconteceu, prever o que pode acontecer depois e nos proteger de novas dores.

Isso pode ser útil. O problema começa quando uma possibilidade se transforma em certeza.

Veja este exemplo:

  • O fato: uma pessoa demorou para responder à sua mensagem.

  • O pensamento automático: “Ela está chateada comigo.”

Essa explicação é possível, mas não é a única.

A pessoa pode estar trabalhando, dirigindo, descansando, resolvendo um problema ou simplesmente ter se esquecido de responder.

Perceber a diferença entre o fato e o pensamento não faz a preocupação desaparecer na mesma hora, mas ajuda você a olhar para a situação com mais calma.

Agora, observe se algum dos padrões a seguir parece familiar.

Cinco distorções cognitivas comuns

1. Pensamento tudo ou nada: ou perfeito ou fracasso

Nesse padrão, não existe meio-termo.

Ou tudo deu certo ou tudo foi um fracasso. Um único erro parece apagar o restante.

Exemplo: você esquece um detalhe de uma tarefa e pensa:

“Estraguei tudo. Nunca consigo fazer nada direito.”

Antes de acreditar nessa conclusão, pergunte:

  • Foi realmente um fracasso completo ou aconteceu um erro específico?

  • O que funcionou, apesar desse erro?

  • Esse erro define tudo o que sou capaz de fazer?

Uma forma mais justa de pensar:

“Cometi um erro em uma parte importante da tarefa. Posso entender o que aconteceu e corrigir o que for possível. Esse erro não define toda a minha capacidade.”

2. Catastrofização: quando a mente imagina o pior

A catastrofização acontece quando uma dificuldade cresce rapidamente dentro da nossa cabeça.

A mente imagina o pior resultado possível, trata esse desfecho como certo e ainda nos convence de que não conseguiremos enfrentá-lo.

Exemplo: antes de uma apresentação, você pensa:

“Vou travar, todos vão perceber e minha carreira estará arruinada.”

Pergunte:

  • O que eu realmente sei?

  • O que estou apenas imaginando?

  • Existem outros resultados possíveis?

  • Se algo não sair como planejei, o que posso fazer?

Uma forma mais justa de pensar:

“Posso sentir nervosismo durante a apresentação. Se eu me perder, posso respirar, retomar o raciocínio e continuar.”

3. Desqualificação do positivo: quando o que deu certo não conta

Você recebe um elogio, mas pensa que a pessoa só quis ser gentil.

Quando conquista algo importante, atribui o resultado à sorte.

Os erros parecem confirmar uma incapacidade, enquanto os acertos são descartados.

Exemplo: depois de receber um bom retorno sobre um projeto, você pensa:

“Só disseram isso por educação. Não estava bom de verdade.”

Pergunte:

  • Eu diria a mesma coisa se esse trabalho tivesse sido feito por outra pessoa?

  • O que fiz para chegar a esse resultado?

  • Posso reconhecer o que deu certo, mesmo sabendo que ainda há pontos a melhorar?

Uma forma mais justa de pensar:

“O projeto pode melhorar em alguns pontos. Mesmo assim, houve um bom resultado, e meu esforço contribuiu para isso.”

4. Leitura mental: quando tentamos adivinhar o que o outro pensa

Alguém fica em silêncio durante uma conversa, e você conclui que a pessoa não gostou do que ouviu.

Uma mensagem demora a ser respondida, e você pensa que fez algo errado.

Um olhar diferente parece confirmar que você está sendo julgado.

A leitura mental acontece quando tratamos uma suposição sobre outra pessoa como uma informação confirmada.

Exemplo: durante uma reunião, alguém fica em silêncio e você pensa:

“Essa pessoa achou minha ideia ridícula.”

Pergunte:

  • Tenho alguma informação que confirme isso?

  • Existem outros motivos para o silêncio?

  • Estou tentando adivinhar o que a pessoa pensa?

  • Posso perguntar o que ela achou?

Uma forma mais justa de pensar:

“Ainda não sei o que essa pessoa achou da minha ideia. O silêncio pode ter vários motivos. Se for importante, posso perguntar.”

5. Supergeneralização: quando uma experiência vira uma regra

Algo não dá certo uma vez, e a mente conclui que nunca dará.

Uma tentativa falha, e surge o pensamento: “Eu sempre desisto.”

Um relacionamento termina, e você pensa: “Ninguém vai gostar de mim.”

Palavras como “sempre”, “nunca”, “tudo” e “nada” aparecem com frequência nesse padrão.

Exemplo: você não consegue manter um novo hábito e pensa:

“Nunca consigo levar nada adiante.”

Pergunte:

  • Isso realmente aconteceu todas as vezes?

  • Existe alguma situação em que foi diferente?

  • O que tornou essa tentativa mais difícil?

  • Estou usando uma experiência para resumir toda a minha história?

Uma forma mais justa de pensar:

“Não consegui manter esse hábito desta vez. Posso entender o que dificultou e tentar novamente de um jeito que combine melhor com a minha rotina.”

Questionar um pensamento não é negar o que você sente

Se você sentiu medo, tristeza, culpa, vergonha ou preocupação, essa emoção merece atenção.

A proposta não é dizer:

“Não deveria estar sentindo isso.”

Também não é trocar um pensamento difícil por uma frase positiva.

A ideia é separar duas coisas:

  • o que você sentiu;

  • a conclusão que sua mente tirou.

Imagine que você recebeu uma crítica no trabalho.

É possível sentir insegurança, e esse sentimento é real.

Mas o pensamento “eu não sirvo para isso” é uma conclusão que pode ser observada com mais cuidado.

A crítica foi sobre um ponto específico ou sobre tudo o que você fez?

Houve algo que funcionou?

O que essa situação mostra?

O que ela não permite concluir?

Esse pequeno espaço entre sentir e concluir pode ajudar você a responder de outra forma.

Um exercício para o dia a dia

Quando perceber uma mudança forte de humor ou sentir que os pensamentos estão acelerados, reserve alguns minutos para responder às perguntas abaixo.

Você pode escrever em um caderno ou no bloco de notas do celular.

  1. O que aconteceu?

    Descreva apenas os fatos. Tente escrever como se estivesse contando a situação para alguém que não estava presente.

  2. O que passou pela minha cabeça?

    Anote o pensamento, a lembrança ou a imagem que apareceu naquele momento.

  3. O que senti?

    Tente dar um nome à emoção: medo, ansiedade, tristeza, raiva, culpa, vergonha ou preocupação.

  4. O que fiz em seguida?

    Você se afastou? Adiou alguma coisa? Respondeu com pressa? Ficou em silêncio?

  5. Estou tratando uma possibilidade como certeza?

    Observe se está imaginando o pior, pensando em extremos ou tentando adivinhar o que outra pessoa pensa.

  6. Existem outras explicações?

    Procure informações ou possibilidades que talvez tenham ficado de fora.

  7. Como posso descrever a situação de forma mais completa?

    Não é necessário escrever uma frase otimista. Procure apenas uma frase mais próxima dos fatos.

Em vez de:

“Eu nunca consigo fazer nada direito.”

Você poderia escrever:

“Hoje cometi um erro em uma tarefa importante. Posso entender o que aconteceu e corrigir o que for possível. Um erro não apaga todas as vezes em que consegui lidar com minhas responsabilidades.”

Lembrete: o objetivo do exercício não é pensar positivo o tempo todo. É desacelerar as conclusões e observar a situação com mais cuidado.

Quando é difícil perceber esses padrões sozinho

Nem sempre é fácil observar os próprios pensamentos.

Alguns se repetem há tanto tempo que parecem fazer parte de quem somos. Outros estão ligados a experiências difíceis, críticas, rejeições, relações importantes ou medos antigos.

Na psicoterapia, esse processo pode ser desenvolvido com apoio.

Ao longo das sessões, é possível entender como pensamentos, emoções e atitudes se relacionam no dia a dia, levando em conta a história e o momento de vida de cada pessoa.

As distorções cognitivas não definem quem você é.

Elas são modos de interpretar o mundo que a mente aprendeu ao longo do tempo. Esses modos podem ser observados, compreendidos e revistos.

Da próxima vez que um pensamento parecer uma verdade absoluta, experimente perguntar:

“Isso é um fato ou é a primeira explicação que minha mente encontrou?”

Talvez a resposta não apareça na mesma hora.

Mas a pergunta pode abrir espaço para outra forma de olhar.

Sobre este conteúdo

Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação psicológica ou o acompanhamento individual de um profissional.

Andresa França

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