TCC e ACT: diferentes caminhos para ampliar a flexibilidade
Quando ouvimos falar em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e em Terapia de Aceitação e Compromisso, conhecida como ACT, pode surgir a impressão de que estamos diante de duas abordagens opostas. De um lado, estaria uma terapia voltada para mudar pensamentos. Do outro, uma proposta baseada em aceitá-los.
Essa divisão, porém, simplifica uma relação que é mais próxima e mais interessante.
A ACT faz parte do desenvolvimento das terapias cognitivo-comportamentais. Ela ganhou espaço entre as chamadas terapias de terceira onda, que ampliaram o olhar para o contexto e para a maneira como cada pessoa se relaciona com seus pensamentos e emoções (Hayes et al., 2022).
TCC e ACT partem de tradições relacionadas e compartilham uma questão importante: como ajudar uma pessoa a reconhecer os padrões que limitam sua vida e construir outras formas de responder ao que está vivendo? Essa aproximação também está presente na terapia baseada em processos, que procura compreender os mecanismos envolvidos nas dificuldades de cada pessoa antes de selecionar as intervenções (Ciarrochi et al., 2024; Ong et al., 2022).
A TCC e a maneira como interpretamos as experiências
A TCC considera que nossas experiências não são determinadas apenas pelo que acontece. A maneira como compreendemos uma situação também participa daquilo que sentimos e fazemos. Pensamentos, emoções, comportamentos, respostas do corpo e contexto se relacionam continuamente, formando padrões que podem favorecer ou dificultar nossa adaptação às circunstâncias da vida (Salkovskis et al., 2023).
Imagine uma pessoa que precisa apresentar um trabalho e pensa: “Vou me atrapalhar e todos perceberão que não sou capaz”. Esse pensamento pode vir acompanhado de ansiedade, tensão no corpo e vontade de evitar a apresentação.
Na TCC, o trabalho pode envolver a compreensão dessa interpretação. O que faz essa pessoa concluir que não será capaz? Que experiências contribuíram para essa expectativa? Existem informações que não estão sendo consideradas? Seria possível olhar para a situação de outra maneira?
O objetivo não é substituir todo pensamento difícil por uma frase positiva. Trata-se de examinar com mais cuidado interpretações que, muitas vezes, passaram a funcionar como certezas. Ao observá-las e experimentar outras respostas, a pessoa pode ampliar sua compreensão e decidir como deseja agir.
Esse processo está relacionado à flexibilidade cognitiva: a capacidade de mudar de perspectiva, considerar outras interpretações e adaptar estratégias diante das necessidades de uma situação (Cherry et al., 2021).
A ACT e a relação com o que acontece internamente
A ACT também reconhece a influência dos pensamentos, mas dirige o olhar para outra questão: o que acontece quando a pessoa se relaciona com um pensamento como se ele fosse uma verdade que precisa determinar suas ações?
No exemplo da apresentação, talvez não seja possível fazer a ansiedade desaparecer ou chegar a uma certeza absoluta de que tudo dará certo. A tentativa de eliminar essas experiências antes de agir pode aumentar a preocupação e fortalecer a vontade de evitar a situação.
A ACT procura ampliar a capacidade de reconhecer pensamentos, emoções e sensações sem permitir que essas experiências determinem automaticamente o comportamento. O objetivo não é controlar tudo o que acontece internamente, mas desenvolver uma relação mais flexível com essas vivências e agir de maneira coerente com o contexto e com aquilo que tem significado para a pessoa (Ong et al., 2024).
O pensamento “não sou capaz” pode continuar presente, mas passa a ser percebido como um pensamento, e não como uma ordem que precisa ser cumprida. Esse processo é chamado de desfusão cognitiva e busca reduzir a influência rígida dos pensamentos sobre as escolhas e os comportamentos (Hayes et al., 2022; Ong et al., 2024).
Nesse caso, a pergunta deixa de ser apenas “Esse pensamento é verdadeiro?” e pode incluir: “Quando sigo esse pensamento, para onde minha vida caminha?” ou “Mesmo com essa insegurança, qual atitude faria sentido para mim neste momento?”
Isso não significa concordar com tudo o que aparece na mente, resignar-se ou suportar situações prejudiciais. Na ACT, aceitação diz respeito à possibilidade de entrar em contato com experiências internas sem transformar a tentativa de evitá-las ou controlá-las no centro da vida (Ong et al., 2024).
Flexibilidade cognitiva e flexibilidade psicológica
Flexibilidade cognitiva e flexibilidade psicológica são conceitos relacionados, mas não significam exatamente a mesma coisa. A literatura apresenta diferentes definições e formas de medir esses conceitos, o que exige cuidado ao compará-los ou tratá-los como equivalentes (Cherry et al., 2021).
A flexibilidade cognitiva envolve a possibilidade de rever interpretações, mudar de perspectiva e encontrar respostas diferentes para uma situação. Ela ajuda a pessoa a não permanecer presa a uma única explicação.
A flexibilidade psicológica é mais ampla. Ela envolve abertura às experiências internas, atenção ao que acontece no momento presente e capacidade de manter ou modificar o comportamento de acordo com o contexto e com os próprios valores. Não se trata apenas de pensar de outra maneira, mas de conseguir agir com maior consciência, mesmo quando pensamentos, emoções ou sensações difíceis estão presentes (Cherry et al., 2021; Ong et al., 2024).
Uma pessoa pode compreender racionalmente que existem diferentes maneiras de interpretar uma situação e, ainda assim, continuar evitando tudo o que desperta ansiedade. Nesse caso, houve alguma abertura cognitiva, mas talvez ainda seja necessário desenvolver maior disponibilidade para entrar em contato com o desconforto e experimentar outra forma de agir.
Por isso, as duas formas de flexibilidade podem se complementar. Rever uma interpretação pode ser importante em alguns momentos. Em outros, pode ser mais útil reconhecer a presença de determinado pensamento e escolher uma ação sem esperar que ele desapareça.
A ACT não se resume à atenção plena
Às vezes, a integração entre TCC e ACT é apresentada como se bastasse acrescentar exercícios de mindfulness, ou atenção plena, à TCC. Essa compreensão deixa de fora uma parte importante da proposta.
A atenção plena pode contribuir para que pensamentos, emoções e sensações sejam percebidos com mais clareza e menor automatismo. A ACT, no entanto, também trabalha com aceitação, desfusão cognitiva, contato com o momento presente, perspectiva sobre si, reconhecimento de valores e ações comprometidas com aquilo que tem significado para a pessoa. Esses processos se relacionam na construção da flexibilidade psicológica (Hayes et al., 2022; Ong et al., 2024).
Da mesma maneira, a TCC não se resume à reestruturação de pensamentos. Ela também pode envolver aproximação gradual de situações evitadas, retomada de atividades, experiências realizadas no cotidiano, resolução de problemas, desenvolvimento de habilidades e mudanças na organização da rotina (Salkovskis et al., 2023).
As duas abordagens oferecem diferentes maneiras de compreender e favorecer mudanças. O que dá coerência ao trabalho não é a quantidade de técnicas utilizadas, mas a razão pela qual cada intervenção foi escolhida.
O que está mantendo o problema?
Talvez essa seja a pergunta que mais aproxima a TCC e a ACT.
Antes de decidir qual estratégia utilizar, é necessário compreender o que está acontecendo na experiência daquela pessoa. Um mesmo comportamento pode exercer funções diferentes, assim como pessoas diante de situações semelhantes podem precisar de caminhos distintos.
A terapia baseada em processos organiza essa compreensão considerando a interação entre aspectos cognitivos, emocionais, comportamentais, biológicos, relacionais e contextuais. A partir dessa formulação, as intervenções são escolhidas de acordo com os processos que parecem contribuir para a manutenção do problema naquela pessoa e naquele momento de sua vida (Ciarrochi et al., 2024; Ong et al., 2022).
Quando uma interpretação rígida impede a pessoa de perceber informações importantes, examinar esse pensamento pode ampliar sua compreensão. Quando o sofrimento está relacionado à tentativa constante de controlar ou eliminar experiências internas, recursos de aceitação e desfusão podem ser mais adequados.
Quando o medo levou ao afastamento de situações importantes, a aproximação gradual pode ajudar a reconstruir esse contato. Quando a rotina perdeu espaço para atividades significativas, a retomada dessas atividades e as ações orientadas por valores podem favorecer novos movimentos.
Essas escolhas não precisam partir de uma oposição entre TCC e ACT. Elas podem ser orientadas por uma formulação construída em conjunto, que considere a história, o contexto, os objetivos e os recursos de cada pessoa. Essa forma de trabalhar procura integrar conhecimentos científicos e decisões clínicas individualizadas, sem depender da aplicação rígida de um único protocolo (Ciarrochi et al., 2024).
Ao longo do acompanhamento, essa compreensão também pode ser revista. Uma estratégia que fez sentido em determinado momento talvez precise ser ajustada posteriormente. O próprio processo terapêutico precisa ter flexibilidade.
A técnica a serviço da compreensão
Uma integração coerente entre TCC e ACT não significa misturar técnicas sem direção. Também não exige abandonar uma abordagem para utilizar contribuições da outra.
O ponto de encontro está na compreensão do processo vivido por cada pessoa. Há momentos em que será importante examinar uma interpretação. Em outros, será necessário aprender a conviver com uma incerteza que não pode ser resolvida. Algumas situações pedem planejamento e resolução de problemas. Outras exigem disponibilidade para sentir desconforto enquanto se caminha em uma direção importante.
A psicoterapia pode oferecer um espaço para reconhecer essas diferenças. A técnica organiza e sustenta o trabalho, mas sua escolha precisa estar relacionada àquilo que a pessoa vive, ao contexto em que essa experiência acontece e ao caminho que está sendo construído.
Nesse sentido, TCC e ACT podem contribuir para ampliar a possibilidade de responder à vida com mais consciência, flexibilidade e autonomia.
Referências
Cherry, K. M., Vander Hoeven, E., Patterson, T. S., & Lumley, M. N. (2021). Defining and measuring “psychological flexibility”: A narrative scoping review of diverse flexibility and rigidity constructs and perspectives. Clinical Psychology Review, 84, 101973. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2021.101973
Ciarrochi, J., Hernández, C., Hill, D., Ong, C. W., Gloster, A. T., Levin, M. E., Yap, K., Fraser, M. I., Sahdra, B. K., Hofmann, S. G., & Hayes, S. C. (2024). Process-based therapy: A common ground for understanding and utilizing therapeutic practices. Journal of Psychotherapy Integration, 34(3), 265–290. https://doi.org/10.1037/int0000348
Hayes, S. C., Ciarrochi, J., Hofmann, S. G., Chin, F., & Sahdra, B. (2022). Evolving an idionomic approach to processes of change: Towards a unified personalized science of human improvement. Behaviour Research and Therapy, 156, 104155. https://doi.org/10.1016/j.brat.2022.104155
Ong, C. W., Ciarrochi, J., Hofmann, S. G., Karekla, M., & Hayes, S. C. (2024). Through the extended evolutionary meta-model, and what ACT found there: ACT as a process-based therapy. Journal of Contextual Behavioral Science, 32, 100734. https://doi.org/10.1016/j.jcbs.2024.100734
Ong, C. W., Hayes, S. C., & Hofmann, S. G. (2022). A process-based approach to cognitive behavioral therapy: A theory-based case illustration. Frontiers in Psychology, 13, Article 1002849. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2022.1002849
Salkovskis, P. M., Sighvatsson, M. B., & Sigurdsson, J. F. (2023). How effective psychological treatments work: Mechanisms of change in cognitive behavioural therapy and beyond. Behavioural and Cognitive Psychotherapy, 51(6), 595–615. https://doi.org/10.1017/S1352465823000590
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